
Ultimamente, tenho sido bombardeado à noite com sonhos que me colocam sempre com uma pulga atrás da orelha, ou várias, dependendo do enredo. Sonho que sou perseguido, que estou defecando e mijando, que estou sujo, com parentes que já partiram desta vida, com lugares detalhados em que eu nunca estive (o famoso déjà vu), com relógios, números, animais e, principalmente, com a maravilhosa cidade de Salvador que tanto marcou a minha infância e começo da adolescência. Aliás, este é um sonho pra lá de recorrente. Já perdi a conta de quantas vezes sonhei o mesmo script. A não ser por algumas pequenas variações, o storyline é o mesmo:
Estou em Salvador e é véspera de voltar para Belo Horizonte. Estou em um apartamento na Pituba (bairro onde meus avós paternos tinham um imóvel, nos anos 80) e sei que preciso curtir até o último suspiro aquela bela cidade. Tenho certeza de que não fui à praia naqueles dias, desde a minha chegada. Mas sempre algo me atrapalha a "chegar lá". Ou é noite, ou está prestes a cair um dilúvio, ou tenho de fazer alguma coisa pela família: tipo ir à Barra, ao Elevador Lacerda... Aí resolvo que vou sozinho, mesmo que seja a pé, até a praia de Piatã (que eu sempre adorei). Às vezes, consigo colocar os pés na areia, tiro a blusa e o sol escalda a minha pele. Em certo sonho, consegui até mesmo entrar no mar! Mas na maioria das vezes, acordo quando estou ainda no asfalto, indo à caminho da praia, em meio ao trânsito caótico.
O fato é que eu não consigo chegar onde eu quero: o mar! Não sei o que este bendito sonho quer me dizer na prática, mas tenho certeza de que preciso me desvencilhar dos nós que me impedem de atingir meus objetivos nesta vida. E são tantos os nós... Quando penso que me livrei de um, outros surgem e atam-me como âncoras fortes. Até meus sonhos despertos me são mutilados pelas notícias e vivências do dia a dia. Quero fugir, mas não sei para onde. Quero ajuda, mas não sei a quem recorrer. Às vezes quero morrer, mas teimo em viver. E permito que o tempo faça das suas comigo, como uma pipa solta no ar, com a linha cortada, que dança ao sabor dos ventos e é tocada pra lá e pra cá até cair em algum lugar remoto. Portanto, resolvi acordado escrever meu sonho sonhado de um dia, tal como um mestre timoneiro, dar uma guinada na vida, neste mar de amplas possibilidades, ganhando em uma loteria (sorte que bilhões buscam atingir para alcançar o inatingível em suas vidas). Já retratei meio que isso em um post antigo, mas vale a pena colocar no "papel", como uma espécie de receita de bolo:
1. Largaria a publicidade, mas não sei se definitivamente (dicotomia);
2. Investiria o dinheiro (inteligência);
3. Pagaria todas as minhas dívidas bancárias e comerciais (honestidade);
4. Limparia o meu nome e o da minha esposa e voltaria a olhar nos olhos dos outros com orgulho (restituição);
5. Pagaria com juros tudo o que eu devo ao que se convém chamar de família (fim das humilhações);
6. Assumiria a educação da minha filha sendo grato ao colégio por tudo o que fez por nós (agradecimento);
7. Compraria um bom apartamento (conforto);
8. Equiparia ele todinho com itens de conforto e tecnologia (sou doido por isso);
9. Teria um canário belga cantador para eu admirar todos os dias o seu canto sublime (inspiração);
10. Compraria um bom carro (soberba);
11. Pagaria check-ups médicos para mim e para minha esposa e restituiria nossos planos de saúde (neurose);
12. Realizaria todos os tratamentos e procedimentos médicos que forem necessários para nossa saúde (cuidados);
13. Sairia de férias com minha esposa e minha filha. Salvador e Búzios (diversão);
14. Encomendaria com amor mais um filho (procriação);
15. Retornaria para a academia de ginástica após 8 anos longe (auto-estima);
16. Começaria uma pós-graduação, talvez mesmo em comunicação corporativa (conhecimento);
17. Iniciaria um curso de inglês (globalização);
18. Faria outros cursos variados: cachaça, culinária, mergulho, tiro, etc. (preenchimento);
19. Daria o ponta-pé inicial no meu projeto literário (sonho);
20. Planejaria um novo negócio ou retornaria à publicidade com um novo olhar e ânimo (empreendedorismo);
21. Procuraria ajudar a quem de fato precisa (sem essa de assistencialismo barato, mas dar a luz a quem precisa para enxergar uma possível saída do túnel).
Túnel... Passar por ele, se possível, sem um arranhão: esse é o meu objetivo. Incólume, apesar dos nós, das ervas venenosas, das almas penadas em vida, das tristezas, das decepções, das angústias, das amarguras, dos ódios, dos rancores, das inimizades, das insatisfações, das punhaladas pelas costas, das armadilhas, das lágrimas, dos gritos, dos descasos, das cicatrizes... Queria que tudo isso fosse substituído por uma palavra: felicidade. Temo que toda esta carga negativa que carrego comigo, imposta ou não, venha um dia a me cobrar pesado tributo. Mas, desperto, espero que não; e sonho com dias quem sabe melhores!





